Ciclismo

Pedalar Enquanto Negro: O Ato Político que Ninguém Me Contou

Era uma manhã de sábado em São Paulo, 6h, céu ainda roxo, quando saí pedalando pelo bairro com o jersey da DePretoPraPreto. Uma mulher na calçada me olhou duas vezes. Não era admiração pelo equipamento, nem curiosidade sobre a bike. Era aquela pausa específica, aquele segundo de recalibração que acontece quando alguém vê algo que o cérebro ainda não catalogou como possível. Um ciclista negro, de kit afro, num horário em que ciclistas "de verdade" pedalam. Eu conheço esse olhar. Aprendi a pedalar dentro dele.

O que quero falar aqui não é sobre superar preconceito com determinação ou sobre provar algo para alguém. Quero falar sobre o que acontece quando você decide existir num espaço que não foi construído para você, e decide fazer isso com estética, com intenção, com orgulho. O ciclismo no Brasil tem um problema de espelho: a maioria das pessoas que aparecem nos anúncios, nos pódios midiatizados, nas fotos de grupos de alto rendimento, não parece com a maioria do Brasil. A DePretoPraPreto nasceu porque eu cansei de esperar que esse espelho fosse ajustado por outra pessoa.

Um kit não é só roupa

Quando comecei a desenvolver os jerseys da DePretoPraPreto, as pessoas perguntavam se era uma linha de produtos ou um projeto social. A resposta que eu dava — e ainda dou — é que essa distinção nunca fez sentido pra mim.

O kit é político porque a visibilidade é política. Quando um ciclista negro aparece num pelotão com um uniforme que celebra estética afro-brasileira, ele não está só pedalando. Ele está ocupando um espaço visual que durante décadas foi homogêneo por design, não por acaso.

Estética e estratégia andam juntas. Sempre andaram. A beleza de um kit bem feito atrai atenção, abre conversa, cria identificação. E dentro dessa identificação mora algo mais profundo: a possibilidade de que um menino ou uma menina negra veja aquela imagem e entenda que o ciclismo também é deles.

"Quando a estética encontra a estratégia, as pessoas não conseguem deixar de notar." Eu vivo essa frase no meu trabalho em segurança de dados e vivo ela igualmente cada vez que saio de bike com as cores da DePretoPraPreto.

Levamos a marca para a Feira Preta, o maior festival de cultura negra do Brasil, e o que mais me marcou não foi o volume de vendas. Foi a quantidade de adultos que pararam, olharam o kit e disseram "eu nunca tinha pensado em mim como ciclista." Esse momento vale mais do que qualquer métrica de conversão.

O que o Team Africa Rising me ensinou sobre pertencimento

Conhecer o trabalho do Team Africa Rising foi um choque de reconhecimento. Uma equipe de ciclismo construída por e para ciclistas africanos, desafiando uma estrutura esportiva que historicamente tratou o continente como paisagem de fundo, nunca como protagonista. Vi no modelo deles algo que eu tentava articular no Brasil sem ainda ter as palavras certas.

O esporte de alto rendimento tem uma narrativa de meritocracia que esconde infraestrutura. Fala-se muito em talento e pouco em acesso, equipamento, treinamento, representação técnica, redes de apoio. O ciclismo competitivo é caro. E o custo não é distribuído de forma neutra.

No Brasil, o ciclismo urbano cresceu de forma diferente. A bike virou ferramenta de trabalho, de transporte, de lazer periférico antes de virar símbolo de estilo de vida de classe média. Existe aí uma tensão que o movimento negro no ciclismo precisa habitar com honestidade: celebrar o esporte sem apagar quem sempre pedalou por necessidade, não por escolha.

Acredito que a DePretoPraPreto vive nessa tensão de forma produtiva. Não somos uma marca aspiracional que vende um estilo de vida distante. Somos uma afirmação de que beleza negra, excelência e ciclismo sempre caminharam juntos, mesmo quando ninguém apontava câmera para isso.

Pedalar como ato de presença

Trabalho com dados, privacidade e segurança há mais de quinze anos. Boa parte do meu trabalho é tornar o invisível visível: encontrar onde os dados estão, entender quem tem acesso a eles, proteger o que precisa ser protegido. Tem algo nessa lógica que ressoa diretamente com o que faço na DePretoPraPreto.

Tornar visível o que sempre esteve lá, mas que os sistemas dominantes escolheram não indexar.

O ciclismo negro no Brasil sempre existiu. Nas periferias, nos grupos de madrugada, nas bikes sem câmbio que levam trabalhadores de um ponto a outro da cidade antes do sol nascer. O que faltava não era a presença. Era o enquadramento. Era alguém decidir que essa presença merecia estética, merecia nome, merecia kit.

Naquela manhã de sábado, depois que a mulher na calçada terminou de me observar, eu continuei pedalando. O céu foi abrindo do roxo para o laranja. E eu pensei: quantas pessoas nessa cidade ainda estão esperando ver alguém que parece com elas cruzar esse horizonte de bike?

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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