Empreendedorismo

A Feira Preta Me Ensinou o Que Nenhum MBA Conseguiu

Era fim de tarde na Feira Preta quando uma mulher parou na frente do estande da DePretoPraPreto, pegou o jersey com as mãos, virou para a filha adolescente ao lado e disse: "Viu? Ciclismo também é nosso." Ela não comprou nada naquele dia. Ficou uns três minutos ali, olhando. Mas aquela frase valeu mais do que qualquer métrica de conversão que eu já estudei.

Esse momento resume o que é construir um negócio com identidade cultural de verdade. Não é sobre nicho de mercado. É sobre devolver às pessoas algo que sempre foi delas, mas que o mercado mainstream decidiu ignorar.

O Mercado Negro Sempre Existiu. O Problema Era a Invisibilidade

Quando lancei a DePretoPraPreto em 2022, muita gente me perguntou se havia espaço para uma marca afro-brasileira no universo do ciclismo. A pergunta em si já dizia muito. O ciclismo brasileiro tem milhões de praticantes. Uma parcela enorme deles é negra. Mas as marcas do setor nunca pareceram ter percebido isso.

A Feira Preta me deu a resposta que o mercado convencional não tinha. Em dois dias de evento, conversei com ciclistas de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte, de Recife. Gente que pedala todo fim de semana, que gasta dinheiro com equipamento, que quer se ver representada no produto que usa. O mercado não era pequeno. Era mal mapeado.

Aprendi no meu trabalho com dados que dado ausente não significa fenômeno ausente. Significa que ninguém decidiu coletar aquela informação. O empreendedorismo negro no Brasil enfrenta exatamente esse problema: o mercado preto existe, consome, inova, mas raramente aparece como variável relevante nos relatórios de tendência.

Quando a estética encontra a estratégia, as pessoas não conseguem deixar de notar. O problema é que por muito tempo decidiram que estética negra não era estratégia — era apenas detalhe.

O jersey da DePretoPraPreto não é só uma peça de roupa. É um argumento visual. Cada estampa carrega referências da cultura afro-brasileira colocadas dentro de um objeto que pertence a um esporte historicamente branco e de elite. Esse choque é proposital. É onde a identidade vira posicionamento.

O Que Quinze Anos em Tecnologia Me Ensinaram Sobre Construir Para Comunidade

Passei mais de uma década protegendo dados de grandes corporações, primeiro na Symantec, depois na Forcepoint, agora na BigID. Trabalhei com equipes na América Latina, na Europa, na Ásia. Aprendi a enxergar estrutura onde outros veem caos, e a fazer perguntas antes de propor soluções.

Esse treinamento técnico mudou a forma como penso empreendedorismo. Antes de criar qualquer produto, preciso entender quem ele serve, como essa pessoa se move pelo mundo e o que ela já sabe sobre si mesma que o mercado ainda não descobriu.

A comunidade ciclista negra já sabia que ciclismo era dela. Eu só precisei aparecer com um produto que confirmasse isso em voz alta.

Construir com identidade cultural não é romantismo. Exige pesquisa, curadoria, decisões difíceis de pricing, logística, comunicação. A DePretoPraPreto não sobrevive de propósito. Sobrevive de execução. Mas o propósito é o que faz a execução ter peso.

Na Feira Preta, vi outras marcas fundadas por empreendedores negros que operam com essa mesma lógica. Gente que não espera validação do mercado tradicional para começar. Que constrói comunidade antes de escalar receita. Que entende que fidelidade de cliente, quando construída sobre identidade compartilhada, resiste a crise melhor do que qualquer campanha de performance.

O Que Fica Quando o Festival Acaba

A Feira Preta dura um fim de semana. O trabalho real começa na segunda-feira.

Muita gente trata eventos de cultura negra como vitrine sazonal. Aparece, tira foto, vende alguma coisa, some. O empreendedorismo afro-brasileiro que acredito ser sustentável funciona diferente. A comunidade não é canal de distribuição. É razão de existir.

Isso muda tudo: a forma de precificar, de comunicar, de crescer, de decidir com quem colaborar e com quem não colaborar. Recebi propostas de parcerias que fariam sentido financeiro no curto prazo, mas que diluiriam o que a marca representa. Recusei. Não por purismo, mas por estratégia.

O MBA me ensinou frameworks. A pós em privacidade me ensinou a pensar em risco. O ciclismo me ensinou a aguentar o tranco da subida sem largar o guidão. Mas foi aquela mulher na Feira Preta, com a filha ao lado, segurando um jersey e dizendo "ciclismo também é nosso", que me ensinou para quem eu estou construindo.

Ela ainda não voltou para comprar. Mas eu penso nela toda vez que começo um novo design.

Jorge Bernardo
Sr. Technical Trainer · Fundador · Ciclista
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